Politica

‘Corrupção é a única coisa que passa de governo para governo’, diz promotor afastado

Afastado da 17ª Promotoria de Defesa do Patrimônio Público do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) pelo ministro Dias Toffoli, o promotor Eduardo Nepomuceno disse, em entrevista ao jornalista Eduardo Costa, da Rádio Itatiaia, “que a corrupção é a única coisa que passa de governo para governo, de políticas públicas para políticas públicas”.

O promotor havia sido afastado em março de 2017 por supostamente ter descumprido deveres previstos na lei orgânica. Em junho deste ano, a Justiça Federal determinou que Nepomuceno retornasse à promotoria, mas Dias Toffoli anulou essa decisão. O ministro considerou que Nepomuceno teria violado regras orgânicas do Ministério Público.

“Dessa vez, sinceramente, não saí nem um pouco insatisfeito porque acho que o contexto veio à tona. Fica mais daquele cidadão que não vive o dia a dia do Ministério Público compreender que estou saindo, justamente, em razão dos meus acertos na promotoria e jamais por conta de erros”, disse Nepomuceno à Itatiaia.

Nepomuceno é bastante conhecido por abrir inquéritos contra caciques políticos, como o senador Zezé Perrella (MDB-MG) e o governador de Minas Gerais Fernando Pimentel (PT).

No dia 31 de agosto, o promotor determinou a reabertura do inquérito sobre as obras no aeroporto de Cláudio, no Centro-Oeste de Minas Gerais, devido a gravações de conversas de Frederico Pacheco, primo de Aécio Neves (PSDB), obtidas pela Polícia Federal (PF).

Leia os principais trechos da entrevista

Sobre o novo afastamento da promotoria: 

Dessa vez, sinceramente, não saí nem um pouco insatisfeito porque acho que o contexto veio à tona. Fica mais daquele cidadão que não vive o dia a dia do Ministério Público compreender que estou saindo, justamente, em razão dos meus acertos na promotoria e jamais por conta de erros.

Vou recorrer porque estou defendendo um interesse que é muito mais da classe, correr atrás de um direito que é da sociedade e dos promotores de justiça como um todo.

Essa constatação é fácil de ser feita em razão de que as imputações que são feitas a mim poderiam ser feitas a mais da metade dos promotores em razão da complexidade das investigações que são feitas na área do patrimônio público. Priorizei a atividade fim ao invés de priorizar relatórios. Isso é que me levou a sofrer sanções, jamais algum erro, algum descaso, algum desrespeito à lei, algum desrespeito à ética.

Motivos para o afastamento:

Tudo é um amontoado de causas. E outra coisa: existe uma técnica de você distorcer algum fato. Então, por exemplo, quando se coloca usurpação de função, que me foi imputada e reconhecida pelo conselho, nada mais foi que um ofício que encaminhei ao procurador do Ministério Público de Contas. Esse procurador era réu numa ação de improbidade movida pela Promotoria do Patrimônio Público. Ele entendeu que o ofício não deveria ser encaminhado para ele, mas para o presidente do Tribunal de Contas. E aí me acusou de estar usurpando as funções do procurador-geral de justiça porque eu teria encaminhado o ofício a ele.    

É uma distorção da realidade. Lamento profundamente que a instituição Ministério Público tenha aceitado essa acusação da forma como ela aceitou. Se não fosse uma disputa interna dentro da própria instituição, certamente eu não estaria passando pelo o que eu passei.   

Lava Jato: 

Infelizmente, a Lava Jato não multiplicou aquela ilha de excelência para o resto do país. Aqui nessas Alterosas, infelizmente, a realidade é totalmente diferente. A gente disputa internamente, disputa com carreiras, às vezes, que poderiam ser aliadas. 

Corrupção: 

Essa é a sensação e faz parte da rotina do promotor de justiça. A gente pensa que está fazendo um trabalho talvez que a próxima geração possa aproveitar, porque, infelizmente, não adianta trocar as peças porque o sistema é corrupto, então ele vai continuar corrupto. A gente vê que a corrupção é a única coisa que passa de governo para governo, de políticas públicas para políticas públicas. Os esquemas de corrupção permanecem, infelizmente. Seria até ingenuidade da nossa parte achar que isso vai acabar por conta de uma atuação de um ou de outro. Mas a gente tem que fazer a nossa parte para que isso possa, de alguma forma, surtir efeito no futuro. 

 

Fonte: Itatiaia www.itatiaia.com.br

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