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Real Madrid e Liverpool duelam “liberdades criativas” e confrontam CR7 e Salah, os grandes mutantes da Europa

Grande Final da Champions League 2017/2018 amanhã as 15:45 horário de Brasília

Zidane e Klopp, rivais na final da Champions

Zidane e Klopp, rivais na final da Champions Getty

Real Madrid e Liverpool se enfrentam no próximo sábado, em Kiev, na Ucrânia, para definir qual é o melhor clube da Europa na temporada 2017/2018. E esta final de Champions League nos traz, acima de tudo, particularidades bem interessantes. A maior, que se faz presente em ambos os lados – cada uma da sua maneira, claro – , trata-se da liberdade criativa que os treinadores impuseram aos seus jogadores durante toda a temporada.

Apesar de praticarem futebol de formas distintas, Zenédine Zidane e Jürgen Klopp prezam o jogo ofensivo e, principalmente, de muita mobilidade com a posse de bola. Tais ideais, inclusive, dificultam até no estabelecimento de uma só plataforma de jogo durante os confrontos até aqui – com os madridistas é ainda mais difícil definir um sistema de jogo.

Muita variação, trocas de posições e jogadores de qualidade no último terço do campo faz das equipes os melhores ataques da competição até aqui (ingleses com 40 gols marcados e os espanhóis com 30). Marcas e formas de jogar que deixam o confronto único em campo neutro totalmente aberto.

O duelo entre ingleses e espanhóis também colocará frente a frente Cristiano Ronaldo e Mohamed Salah. Jogadores que precisaram sofrer algumas transformações para chegar ao grande número de gols marcados na temporada: ambos têm 44.

Confira na íntegra a análise dos times e dos craques que envolvem este jogão:

REAL MADRID: COM QUAL TIME, ZIZOU?

É totalmente plausível afirmar que o Real Madrid fez uma temporada de altos e baixos. Mais que nos resultados, a equipe comandada por Zinédine Zidane oscilou bastante em desempenho. E tal afirmação não fica apenas dentro da não briga pelo título espanhol vencido pelo Barcelona, mas também escorre no caminho trilhado na UEFA Champions League.

Foram vários os momentos de aperto durante os mata-matas da competição. Temos que ressaltar que o caminho até a final não foi dos mais fáceis: PSG, Juventus e Bayern de Munique foram derrubados. Mas também é fato que o Real não conseguiu exercer grande controle durante estes duelos. Na verdade foi mais controlado. Se viu pressionado e encurralado em vários momentos, mas a fortaleza psicológica fundada em seus jogadores nos últimos anos acabou sendo decisiva.

O contexto da equipe madridista vai muito além da parte tática. Tem um time que, apesar de se desorganizar em várias situações, consegue ser letal nas chances que cria. E normalmente em momentos cirúrgicos do jogo, muitas vezes condicionando o restante da partida.

Além da qualidade acima da média no terço final do campo, que é totalmente determinante durante sua campanha, paira no Santiago Bernabeu uma mentalidade vencedora, capaz de dar a tranquilidade necessária ao grupo de jogadores nos momentos mais difíceis. Uma coisa é certa: se você não matar sua chance, será morto na sequência. Não tem como, o aproveitamento tem beirado a perfeição neste sentido.

A mobilidade talvez seja a grande virtude da equipe treinada por Zinédine Zidane. Muitas trocas de posição no setor ofensivo e ataques aos espaços, somada à liberdade criativa que os jogadores obtiveram com seu comandante, acaba por ser um dos grandes motivos do sucesso recente. Uma engrenagem cheia de intuição e talento, com sua organização para justamente potencializar todo esse repertório técnico.

A flexibilidade dos esquemas táticos utilizados até aqui também mostra muito deste retrato de autonomia dos atletas em campo. O Real varia entre 4-3-3 (normalmente com o trio BBC em campo), 4-3-1-2 (com Isco na ponta do losando e três meio campistas por trás) e até mesmo o 4-4-2 em linha (este quando Zizou opta por Asensio e Vazquez). Durante sua passagem pelo Santiago, o treinador francês chegou a usar três zagueiros, mas não foi algo que se manteve com regularidade.

Tal metamorfose nas plataformas de jogo traz até o questionamento de qual time iniciará o duelo contra o Liverpool no próximo sábado. Zidane tem, por vezes, se baseado nos adversários para escolher os 11 jogadores que iniciam. Me parece, inclusive,  que a formação com um losango no meio e Isco municiando os atacantes (normalmente Benzema e Cristiano avançados) é a preferida. Por outro lado, Bale vem de bons desempenhos nos últimos jogos e pode estar cavando sua vaga na decisão.

A terceira opção (como mostra o vídeo abaixo), no entanto, tem dado um maior equilíbrio ao Real Madrid, principalmente durante as transições. Foram vários os momentos que Zidane recorreu aos jovens Asensio e Lucas Vazquez (virada contra o PSG e partida contra a Juve), ambos fechando os lados e auxiliando o trabalho defensivo dos seus laterais. Um time mais agressivo, mais intenso e, principalmente, com melhor ocupação dos espaços defensivos.

O lado esquerdo, inclusive, é o céu e o inferno do Real Madrid. Tem Marcelo, com grande repertório técnico e cognitivo chegando muito ao ataque, inclusive pisando na área em vários momentos, porém a necessidade de coberturas e compensações, já que o brasileiro é incapaz de estar em dois lugares ao mesmo tempo. É aí que a importância das coberturas e o jogo físico de Casemiro, peça importante para a grande engrenagem funcionar. Certamente será um espaço observado por Klopp e atacado durante o confronto.

LIVERPOOL: INTENSIDADE E CONTRA-ATAQUE FULMINANTE

A grande marca do Liverpool na vitoriosa caminhada até a final da UCL, sem dúvida nenhuma, é a intensidade. Um time elétrico em campo nos grandes jogos. Agressividade, transições fortes e muita, mas muita mesmo, velocidade no terço final do campo.

E talvez a grande referência para Klopp neste processo à frente do clube inglês seja os primeiros 45 minutos do mata-mata contra o Manchester City de Pep Guardiola. O dia em que o campeão da Premier League praticamente não respirou dentro de campo, tamanho o sufocamento dos Reds, que exerceram muita pressão na bola durante o confronto. Foi o ponto alto do Liverpool durante a temporada.

E é no momento da recuperação da posse que mora o maior perigo nesta equipe do Liverpool. As reações dos seus jogadores são instantâneas. Projetam e atacam os espaços em velocidade máxima, sempre buscando o gol com muita objetividade. Este contra-ataque, aliás, gera uma jogada bastante padronizada em gols e lances de perigo criados ao longo da temporada (veja no vídeo abaixo).

Perceba que, ao retomar a bola, Roberto Firmino tem um papel de grande relevância para que a bola chegue até a área dos adversários. É o camisa 9 o escape, o jogador para receber a posse num primeiro momento de transição ofensiva. Cabe a ele, nesta altura do jogo, tomar as melhores decisões possíveis: reter a bola e esperar os movimentos de Salah e Mané? Jogar de primeira e já se projetar no espaço mais próximo? Atacar a profundidade? Pois é. Isso não tem sido problema para o brasileiro.

Apesar da grande número de gols anotados por Salah, Firmino tem tido um papel de grande importância no sucesso do Liverpool. Entende o tempo e a maneira certa de soltar a bola, onde coloca-la e onde ir após a ação (vídeo acima mostra bem isso, com ele concluindo jogadas após ajudar na criação das mesmas). Depois de muita crítica, sobretudo com a camisa da Seleção Brasileira, o “meia que joga de centroavante”, enfim, tem conquistado a confiança de todos.  Faz até aqui uma temporada impecável.

E essa força nas transições ofensivas tem muito a ver com uma escolha de Klopp que, por vezes, faz a opção de defender com menos jogadores para, inevitavelmente, ter mais peças para atacar na retomada da bola. Retorna com 7 ou 8 jogadores (Firmino recua mais que os pontas) e, quando a posse é recuperada, tem dois jogadores de muita velocidade para atacar a profundidade. Perceba no vídeo acima como o posicionamento corporal deles é importante neste momento, de como estão todos prontos para o primeiro arranque, deixando os marcadores (na maioria mais lentos) para trás. E existe outro sentido na ideia: ao segurar dois atacantes mais avançados, o treinador também pense que eles possam segurar três defensores. Existe toda uma lógica nisso, pensando em duelos no mano a mano e em sobras.

E o bom momento do Liverpool não se dá apenas pela fase de seu trio de ataque, Klopp achou e conseguiu evoluir jogadores importantes. Robertson, Alexander-Arnold, Oxlade Chamberlain e Milner… Todos casos destes, seja em soluções ou mesmo reinvenção de talentos num contexto que os potencializam. Hoje, de fato, o elenco do Liverpool entende como ninguém o jeito Klopp de jogar.

O desequilíbrio defensivo também foi melhorado. Depois de um início de temporada oscilante, tomando gols infantis e, muitas vezes com erros individuais durante a jogada, o treinador alemão teve a contratação de Van Dijk (zagueiro mais caro da história) como um ponto determinante da caminhada até Kiev. Foi muito dinheiro, mas foi uma movimentação de mercado bem precisa. O holandês qualificou a linha defensiva e se encaixou prontamente ao jogo alucinante da equipe.

CR7 E SALAH: MENOS CONSTRUTORES, MAIS LETAIS

Se somarmos as redes balançadas por Cristiano Ronaldo e Mohamed Salah nesta temporada, chegamos a um número de 88 gols. Agora, se pensarmos que, tempos atrás, tratava-se de dois pontas, que não jogavam necessariamente dentro da área dos adversários, tal marca impressiona ainda mais.

Mohamed Salah em ação pelo Liverpool no dérbi contra o Everton
Mohamed Salah em ação pelo Liverpool no dérbi contra o Everton Getty

De fato, são jogadores que passaram por um tipo de mutação nos últimos anos. Deixaram de ser mais construtores, criadores de situações de gol para ser a outra ponta da jogada: a conclusão. E os números abaixo (TODOS NO FORMATO DE MÉDIA) mostram bastante disto.

Médias ofensivas de Salah na atual temporada (legenda: quanto mais escura a cor, melhor a marca)
Médias ofensivas de Salah na atual temporada (legenda: quanto mais escura a cor, melhor a marca) ESPN

Perceba na tabela acima como Salah praticamente dobrou sua média de gols se compararmos com as duas temporadas anteriores (Roma e Chelsea). Outros números que chamam a atenção são os de finalizações e ações dentro da área adversária. Todos numa crescente.

Na contramão disso, o egípcio tem uma queda no número de chances criadas, algo que era muito recorrente nos tempos em que era um ponta direita mais característico, sempre trabalhando no corredor, ajudando o lateral na marcação e criando situações de linha de fundo ou mesmo cruzamentos com a perna esquerda. No seu caso, não foi bem uma mudança de posição, mas sim de função, de como trabalhar os movimentos em campo.

Atualmente Salah não tem a obrigação de se manter aberto pela direita a todo custo. Ao contrário disso, tem liberdade para jogar mais por dentro. Em muitos momentos, se coloca até mais avançado que Firmino que, teoricamente, é o centroavante da equipe (usei o teoricamente porque se trata de um falso 9, que tem como ideia justamente sair da referência e abrir espaços). Cabe a ele então jogar sempre atacando a profundidade, infiltrando e tendo mais chances de sair na cara do gol (o vídeo abaixo mostra bem isso).

Ainda dentro da análise acima, perceba como o egípcio se mantém sempre no limite da linha defensiva. Quando sai, toca e já projeta nos espaços. Para dar este tipo de liberdade para ele, Klopp por vezes usa meias, volantes e até mesmo laterais para abrir o campo. O conceito de amplitude, para alargar o bloco defensivo do adversário, se mantém. Mas com outras peças exercendo tal ideia.

Além desta leitura e inteligência para saber o momento certo das infiltrações, Salah ainda tem o privilégio de não precisar percorrer um espaço tão grande do campo. Como é um dos jogadores que se mantém posicionados para atacar enquanto a equipe defende (chamamos isso de balanço ofensivo), acelera em distâncias menores, tendo uma reserva energética maior para, na hora do arranque, deixar seus marcadores para trás. Ou seja, trabalha dentro de um contexto para, nos momentos certos, dar tudo de si na questão física. Isso sem dúvida potencializa seu poder de destruição contra as defesas.

Cristiano Ronaldo com 5ª Bola de Ouro no Santiago Bernabeu
Cristiano Ronaldo com 5ª Bola de Ouro no Santiago Bernabeu Getty Image

O caso de Cristiano Ronaldo é diferente. Apesar de também estar passando por uma transformação na sua maneira de jogar, sua mudança também é, em vários momentos, de posição. Com o passar dos anos, o português deixou de ser um ponta-esquerda típico e tem se movimentado praticamente como um centroavante, principalmente quando Zidane usa uma formação sem Bale e com dois atacantes.

A ideia, assim como no caso de Salah, é fazer com que o camisa 7 deixe de percorrer grandes distâncias e, principalmente, fique próximo ao gol. Veja nos números abaixo, nos mesmos moldes do rival do Liverpool, como suas ações dentro da área aumentaram. Mais que isso, maior média de gols e menos assistências. O número de finalizações também chegou ao seu ápice nesta temporada.

Números ofensivos de Cristiano Ronaldo na atual temporada (legenda: quanto mais escura a cor, melhor a média)
Números ofensivos de Cristiano Ronaldo na atual temporada (legenda: quanto mais escura a cor, melhor a média)ESPN

A adaptação de Cristiano Ronaldo neste novo papel é assustadora de tão eficaz. Claro que já vem de alguns anos, mas mostra características muito próprias de um camisa 9, principalmente em questões como leitura dos espaços e primeiro toque, sempre muito usado para concluir jogadas de primeira. Na análise abaixo, perceba como ele consegue trocar de direção e, em muitos momentos, enganar a marcação na hora da conclusão a gol.

Outra questão muito perceptível em seu jogo é a infiltração. O craque português consegue, por vezes, ter um timing perfeito para antecipar jogadas. Atua sempre no limite do impedimento, deixando as condições dos zagueiros em levarem a melhor nos lances ainda menores. Preenche bem o funil (entrada da área), arremata de pequena, média e longa distância, finaliza por cima e por baixo, de cabeça, direita, esquerda… Consegue ser letal em espaços cada vez menores e cheios de pressão na bola.  Uma reinvenção como atleta de futebol profissional, muito da sua busca pela perfeição, profissionalismo e inteligência para entender o jogo de uma maneira mais ampla.

Está longe de ser aquele jogador de beirada potente dos tempos de United, com transições e distâncias enormes percorridas no campo, mas qualificado para ser um dos melhores (se não o melhor) centroavante no mundo. Uma força mental sem limites, capaz de resolver jogos com poucas chances. Peça essencial para o Real Madrid, apesar de suas oscilações, chegar a mais uma final de UCL.

Fonte: www.espn.com.br/blogs/renatorodrigues

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